O MONSTRO NEGRO PEDE SOCORRO
Como
libertar o monstro negro
das correntes que o prende?
Assisti à série brasileira “Amar é para os fortes”, criada por Marcelo D2 e disponível no Prime Video. O elenco conta com Clara Moneke, Maicon Rodrigues, Mariana Nunes, Tatiana Tiburcio e Breno Ferreira. Embora a estética seja completamente realista, foi impossível não lembrar do texto do Nicholas Whittaker “Por que o horror negro importa?”, que postei aqui no blog, sobre a monstruosidade das vidas negras e de como o racismo é capaz de nos transformar em monstros. No caso, a instituição Policial Militar e seu racismo institucional transforma o jovem soldado Rodrigo em algo que ele jamais quis ser: um monstro negro.
Por
toda a série, o mostro negro grita socorro em silêncio. Com bastante drama e
sensibilidade, acompanhamos o seu sofrimento e o de sua família, da mesma forma
que acompanhamos o sofrimento da família e da comunidade da criança Sushi, além
da busca por justiça.
Há
também bastante arte visual, música e amor. A série é permeada por cenas de
afeto, amizade e resistência artística, mas a temática da brutalidade da
violência policial se impõe com mais força. Eu gostaria muito de ver mais
filmes e séries que contassem história de amor, amizade e dramas familiares
afrocentrados sem que a violência policial seja o disparador das tramas. Ou
então que denunciasse a violência policial a partir das convenções do horror,
como o filme estadunidense “Bodycam”, de Malik Vitthal, por exemplo. Porque a
impressão é que a perspectiva negra só interessa ao mercado literário e
audiovisual quando o assunto é pornografia do trauma, e quanto mais realista,
melhor. Mas paro por aqui, já que essa crítica o filme “Ficção Americana”, de
Cord Jefferson, consegue fazer melhor que eu.
O
ponto problemático da série é a insistência da família e da comunidade em
apenas um único argumento: o de que um menino de onze anos não é “bandido”, ao
invés de lutar pelo respeito incondicional aos direitos humanos. É completamente
compreensível a necessidade de uma família em provar que seu ente querido era
uma pessoa com ética e ficha limpa, ainda mais se tratando de uma
criança, mas ao mesmo tempo precisamos lembrar que o Brasil adota, desde o dia
13 de maio de 1888, um plano de genocídio do povo negro, e não “genocídio dos
bandidos”. Se o bandido for branco e tiver um porshe, ele pode matar e será
liberado para ir para casa. Se o bandido for branco e médico, ele pode estuprar
uma paciente no momento do parto e no máximo será levado até à delegacia sem
algemas e sentadinho no banco de trás da viatura, tipo num Uber. Traficantes
brancos não são assassinados, eles mantém livremente os seus negócios, então
porque traficantes negros merecem morrer? Enquanto a reivindicação for “Meu
filho não merecia morrer porque ele não era bandido” ao invés de “Meu filho foi
assassinado porque não era branco, pouco importa se era bandido”, o corpo negro
estará sempre em perigo. Afinal, se há carta branca para matar “bandidos” numa
sociedade em que bandidos brancos estão protegidos pelo privilégio branco e
pelo pacto da branquitude, quem vai ser o único assassinado nessa história? Os
negros, “bandidos” ou não.
Uma
das cenas mais impactantes da série acontece no episódio 6 “Olho no olho”, em que
Rita vai até a casa do policial Rodrigo e se espanta com a juventude dele: “Eu
vim aqui para olhar no seu olho, mas você é um menino!”. Essa é uma cena muito
interessante, porque é como se recuperasse a humanidade do “monstro negro”, o
policial assassino.
E
como o jovem soldado vira o monstro? Isso é mostrado no primeiro episódio. Foi
depois de uma operação policial na favela da Maré no dia das mães. Aí a série
perdeu mais uma chance de dizer o óbvio: Não tem que ter operação na favela!
Nem no dia das mães nem em dia nenhum do calendário. Tráfico de drogas se
combate com a 1) prisão de fornecedores internacionais de drogas junto com a
INTERPOL, com agentes da ABIN e da PF fazendo a sua parte 2) proteção das
fronteiras (por terra, mar e céu) para apreender drogas, armas e drones, com o
Exército, Marinha e Força Aérea fazendo a sua parte e 3) Bloqueio de
contas bancárias, bens e investimentos do crime organizado, com a Receita
Federal fazendo a sua parte para identificar esse patrimônio, localizar e pedir
o bloqueio judicial. Tráfico de drogas não é caso de polícia. Se a polícia está
combatendo o tráfico, é porque tem gente prevaricando, e muita, muita gente. É
isso o que a série deveria defender.
Já
o ponto alto da série é a situação vista
pelo ponto de vista de ambas as mães, tanto a mãe da criança assassinada,
quanto a mãe do assassino. É muito emocionante acompanhar suas preocupações,
angústias e anseios durante a jornada. O final é extremamente comovente, com
mães reais que tiveram filhos e filhas assinadas por policiais proclamando por
justiça e pelo fim da violência policial.
Fica
aqui meus elogios. Amar é para os fortes é uma excelente história,
contada com muita sensibilidade, e muito me orgulha que ela seja brasileira e
com um elenco lindo pura melanina. Sugiro que todo mundo assista.
Principalmente para que conheça o desfecho, quando temos o monstro negro se desvencilhando
das correntes e deixando transparecer a verdadeira liberdade humana, após
tantos gritos silenciosos de socorro.


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