EU TENHO MEDO DE VOCÊ









Como se dá a dinâmica do medo num país hierarquizado pela raça?

Por Najla Carolina

 

Sabemos que as histórias de terror tem a ver com o medo. É um gênero que impõe a sensação de desconforto e insegurança diante de uma ameaça a um bem que amamos: vida, liberdade, propriedade, integridade física e saúde mental, por exemplo.

Em seu livro “Horror Noire: a representação negra no cinema de terror” (Darkside Books, 2019), a estudiosa estadunidense Robin R. Means Coleman argumenta que a definição do gênero é um processo complexo, quiçá impossível, e às vezes infrutífero. Ela cita Isabel Cristina Pinedo, quem descreve cinco características para o gênero: (1) o horror perturba o mundo corriqueiro; (2) infringe e viola limites; (3) incomoda a validez da racionalidade; (4) resiste aos fechamentos narrativos e (5) trabalha para evocar o medo.

E aí entra a questão: o medo de quem?  Em Horror Noire, Robin nos prova que a história do cinema de terror nos Estados Unidos foi uma construção de narrativas baseadas nos interesses políticos, valores e visões de mundo da branquitude, e, obviamente, de seus medos. E para defender a ideologia de supremacia branca, esse grupo criou imagens para desumanizar, demonizar e monstrificar pessoas negras sempre que possível, desde o filme “O Nascimento de uma Nação”, de 1915, até os dias atuais.

Agora veja o início do conto “Espiral”, de Geovani Martins, publicado em seu livro de estreia “O sol na cabeça” (Companhia das Letras, 2018):

“Começou muito cedo. Eu não entendia. Quando passei a voltar sozinho da escola, percebi esses movimentos. Primeiro com os moleques da escola particular que ficava na esquina da rua da minha escola, eles tremiam quando meu bonde passava. Era estranho, até engraçado, porque meus amigos e eu, na nossa própria escola, não metíamos medo em ninguém.”

Aqui temos um jovem narrador sem nome que descobre que os pedestres de outro grupo social tem medo dele, e então o garoto decide lidar com a situação de uma forma surpreendente.

A propósito, o medo que os outros tem dele na rua é um medo específico, de sensação de ameaça à propriedade: “uma velha segurava a bolsa e atravessava a rua para não topar comigo.”

É interessante que em nenhum momento é descrita a aparência do narrador nem dos algozes que praticam a discriminação, mas a partir  dos marcadores sociais de classe, do perfil psicológico de ambos os lados e do nosso conhecimento prévio da realidade racial brasileira, é impossível não relacionar o narrador à negritude e os seus opositores à branquitude, e nisso reside um dos componentes geniais do conto: é dito sem precisar dizer.

“Nunca esquecerei da minha primeira perseguição. Tudo começou do jeito que eu mais detestava: quando eu, de tão distraído, me assustava com o susto da pessoa e, quando eu via, era eu o motivo, a ameaça”.

Mas de onde vem o tal medo branco da presença negra? Em seu livro “Onda Negra, Medo Branco” (Paz e Terra, 1987), a historiadora brasileira Célia Maria Marinho de Azevedo cita um trecho da fala do então presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo que. O parlamentar advoga pela substituição da mão-de-obra negra escravizada por mão-de-obra branca de imigrantes livres, argumentando que a imigração branca é necessária, pois braços negros são “perigosos”. E após o trecho, a historiadora comenta:

“Lembremos que o projeto foi apresentado em 17 de janeiro de 1881 e aprovado conjuntamente com uma emenda em 20 de janeiro; no dia 25 ele já era lei. A rapidez com que este projeto tornou-se lei é realmente surpreendente, a julgar pela morosidade dos trabalhos parlamentares em geral. Pode-se ter assim uma idéia da insegurança e do temor sentidos pelos representantes dos proprietários da província em relação àqueles braços negros, “comprometedores e quiçá perigosos”. Este medo, decorrente de um possível alastramento da in disciplina entre os escravos, muito provavelmente impulsionou a corrente de imigrantistas que então se destacava com mais força na província, ao que indica o crescente número de medidas pró-imigração votadas daí para a frente na Assembléia Provincial e efetivamente aplicadas pelo governo de São Paulo.”

Ou seja, a transformação do corpo negro numa ameaça foi uma estratégia política criada pela elite branca brasileira na era pós-abolição, com o fim de  defender a imigração em massa de europeu, marginalizar a negritude recém-liberta e implementar o projeto de embranquecimento da população. De fato, um medo construído de forma intencional e sórdida, nada irracional.

“Espiral”, embora não seja um conto de terror em sentido estrito, pode ser lido dessa forma pelas/os fãs do gênero, afinal, apesar dos brancos verem o garoto negro como ameaça, sabemos que ele não é, o que nos faz temer pelo que os brancos possam fazer com ele. 

O tema de gente branca que enxerga gente negra como ameaça à propriedade, também recheia os versos da canção Testando, de Ellen Oléria: “Andando na rua de noite, muita gente branca já fugiu de mim. A minha ameaça não carrega bala, mas incomoda o meu vizinho.”



Um dos pontos altos da canção é o trecho em que há inversão de expectativas sociais em relação a um grupo de assaltantes: “Três garotos, tipo de uns quinze anos, eu nunca vi na área esses garotos brancos. Duas meninas louras com boné cor de rosa”. A imagem de Ellen com as mãos para cima enquanto o assaltante branco aponta o revólver é a voz da artista a dizer: Sou eu quem tenho medo de você.

É por isso que o renascimento do horror negro é tão bem-vindo. Se o medo é uma construção de imaginário social, alimentado por propagandas ideológicas nocivas, ele também pode ser desconstruído, ou no mínimo, desmascarado enquanto parte de um projeto de opressão. A estudiosa estadunidense Kinitra Brooks é direta: “O horror nos permite cutucar essas ideias de como esses medos são construídos e quem os constrói”.

(ative no vídeo a legenda em português, se precisar)



Além disso, o horror negro tem o poder de reinventar o próprio cerne do gênero. Certamente, você já deve ter ouvido alguém questionar: “Corra!, de Jordan Peele é mesmo um filme de terror?”. Aposto todas as minhas fichas que essa dúvida partiu de uma pessoa branca. Isso porque nesse filme o racismo é o monstro.

E isso não significa dizer que se trata de um terror “realista” e sem elemento sobrenatural, pois para nós pessoas negras, o racismo é ao mesmo tempo real e sobrenatural: algo que está encarnado na branquitude, mas também fora dela. Pense no conceito de racismo estrutural. Você entra numa turma de medicina em alguma universidade, e dos 40 alunos e alunas, três são pessoas pretas. Não há uma placa na porta dizendo que pessoas pretas não são bem-vindas em cursos de medicina nem houve um massacre de alunos pretos pelos alunos brancos, mas aquela é uma universidade racista. O monstro está ali, mas está invisível, disfarçado no discurso de mérito, esforço e igualdade de oportunidades e condições materiais.

Outro motivo de entendermos o racismo também como sobrenatural é que o racismo não tem explicação, é incognoscível, embora possa ser analisado, manuseado, identificado. A explicação racional de que se trata de uma tecnologia social euroasiática para usurpação, acumulação e manutenção de riquezas para um grupo específico, parece insuficiente para quem sofre as suas mazelas na pele. Por toda a desgraça que o racismo já produziu no mundo, é impossível que seja "só" isso, tem de haver algo maligno para além de nossa percepção.

Veja esse trecho de James Baldwin em seu livro de ensaios “Mente vazia, oficina do diabo”, (que está disponível gratuitamente na Amazon para quem assina Kindle Unlimited):

 

“Eu achava os brancos indescritivelmente ameaçadores, aterrorizantes, misteriosos e... perversos. E eles eram misteriosos, de fato, na medida em que eram perversos. A questão insondável era precisamente esta: o que, sob o céu ou sob o mar, ou nas catacumbas do inferno, poderia fazer alguém agir como os brancos agiam?”

 

Os brancos são "MISTERIOSOS". A perplexidade de James Baldwin diante da perversidade branca está para além da apreensão racional, possui um mistério. Ele sente medo dos brancos, mas não é só isso. O verdadeiro desequilíbrio está no fato de não saber por que os brancos agem assim. E é por isso que a comunidade negra sempre gostou de histórias de terror - ela sente que há um componente sobrenatural no racismo.

Se a missão de um artista de terror não é fazer o público dizer “Ah, entendi, eles são assim”, mas expor a monstruosidade de de uma forma tão avassaladora que o público se pergunte: “Nossa, mas por que eles são assim?”, podemos concluir que a impressão emocional de James Baldwin em relação ao racismo é a mesma de quando estamos diante de um monstro – algo forra de nossa compreensão, que escapa aos conceitos racionais, biológicos, físicos, que não tem explicação.

Agora veja a cena abaixo e vamos descobrir por que mesmo num filme realista e biográfico, ela se mostra como uma cena de terror sobrenatural.

 



O filme A história de Ruby Bridges, da diretora estadunidense Euzhan Palcy, reconstrói a vida da menina que dá nome ao filme, a primeira criança negra a estudar numa escola segregada para brancos no estado de Louisiana, que insistia na segregação mesmo após a proibição em 1960 pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Ruby, de seis anos, vai por fim à cretinice. 

Na cena, logo que a mãe de Ruby sai do carro, o que vemos é a expressão de pavor em seu rosto. A multidão de brancos racistas é retratada como um monstro decidido a devorá-las. Protegidas por policiais federais, mãe e filha caminham sob um clima sombrio e de perigo iminente em meio aos gritos furiosos de protesto. Quando chegam ao outro lado,  há um diálogo entre policiais: “O governador do ótimo estado de Louisiana diz que você não pode entrar”, “Obrigador, senhor, mas o presidente dos Estados Unidos diz que eu posso”, e Ruby está livre para entrar na escola. 

Mas algo acontece: ela sobe apenas um degrau e hesita. Por que ela hesita? Não se trata de medo, Ruby não sabe o que estava acontecendo, não tem consciência do racismo nem sabe ler os cartazes de ódio que os brancos erguiam na entrada da escola. A hesitação de Ruby está no âmbito dos sentidos e não da intelectualidade – ela sente uma força maligna que a paralisa. Então, compreendemos o que paralisou Ruby quando a cena transfere a monstruosidade do racismo na multidão branca para o prédio da escola. Agora o monstro é a escola, gigante ao ponto de Ruby nem conseguir vê-la por inteiro. Ruby é pequena, mas mesmo assim terá que enfrentar o monstro a sua frente: a segregação racial.

Essa relação entre medo e racismo surgiu numa conversa entre Paulo Galo e Ian Neves. “Você tem medo de mim, irmão? Porque eu tenho medo de você”. Paulo tem medo dos brancos da mesma forma que James Baldwin.

Embora sem sucesso, os garotos negros tentaram explicar aos garotos brancos que a violência branca é sempre iminente. A “estética” de Ian não é convidativa a pessoas negras da periferia, porque são justamente pessoas com essa estética que geralmente agridem e discriminam pessoas negras. 

Se quiser, faça um teste. Digite no buscador do Youtube: “Entregador é agredido por cliente”. O resultado é impressionante: Os entregadores agredidos são sempre negros e os clientes agressores são sempre brancos. Paulo é uma liderança do movimento de entregadores, ele sabe que seu medo parte de uma realidade dura.


Por favor, copie e cole o link no youtube

GALO FAZ PERGUNTA CABULOSA PARA IAN NEVES 

https://www.youtube.com/watch?v=QjqZAPPwtXw


Ian, branco, diz que não teria medo de entrar num boteco da periferia para falar de comunismo, mas esquece de dizer que ele não precisa ter medo – ele tem sempre a polícia para defendê-lo. O Paulo, não. Nós pessoas negras, não podemos contar com a defesa de policiais. Paulo, inclusive, já sofreu tortura policial. É por isso que Paulo tem medo de adentrar espaços da branquitude e Ian não tem medo de entrar em espaços da negritude.

Revelar essa dinâmica do medo racializado, numa perspectiva afro-atlântica, é uma das novidades do atual gênero horror. E, para além de seu poder pedagógico e de contraponto ideológico, o horror negro traz ao público negro uma história onde seus próprios medos constituem a matéria-prima da narrativa.

É no horror negro que a comunidade negra se vê, se reconhece, se emociona e constroi o próprio espaço para dizer: Eu tenho medo de você.

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